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domingo, 31 de agosto de 2014

Robin Willians, a sina indomável

O mundo das artes cênicas ficou bem mais pobre e triste após a notícia da morte, ( posteriormente confirmada como suicídio ) do ator Robin Willians.
 
Amigos disseram que sofria de depressão; dormia em quarto separado de sua mulher e foi achado suspenso por um cinto preso ao batente da porta, com sinais superficiais que tentou cortar os pulsos.
  
Acostumamos a ver só o ator, salvo em cerimônias como a do Oscar e similares onde se via algum aspecto do ser humano, ainda quê, sob a febre de sua arte. Mesmo que o papel interpretado fosse de um sofredor, um depressivo, até, admiraríamos mais, tanto quanto, mais verossímil parecesse; pois, a isso atina a excelência de sua arte.

Desse modo, o ser humano subjacente quase sempre nos escapou.  Agora apareceu em lamentável sina. Vemos o estertor de uma vida que de alguma forma olhou com melhores olhos para o colo da morte.
 
Muitos  pensaram sobre o suicídio; vou citar alguns e suas reflexões: “A obsessão pelo suicídio é própria de quem não pode viver, nem morrer, e cuja atenção nunca se afasta dessa dupla impossibilidade.” ( Emil Cioran ) 
“O suicida na verdade não quer se matar mas quer matar a sua dor.” ( Augusto Cury )
“ O suicídio tanto pode ser afirmação da morte como negação da vida. Tanto faz. - É mentira. E vou explicar: o suicida é aquele que perdeu tudo, menos a vida.” ( Fernando Sabino )
 
Schoppenhauer em seu “Livre Arbítrio” afirmou que uma pessoa de posse de um revólver, por exemplo, não poderia gabar-se de ter poder para se matar; carecia – disse – de um motivo mais forte que o amor à vida, ou o medo da morte. Sem isso, nada feito.

 Pois bem, essa busca pelo imenso e doloroso motivo é que desafia nossa compreensão. O amor próprio é inato em nós; tanto que, Deus o toma como parâmetro altruísta ao ordenar que amemos ao próximo como a nós mesmos, sem ordenar que nos auto-amemos; parte da suposição que é natural. 
Nesse prisma, a definição de Cury que o suicida visa matar apenas a dor faria do ato o derradeiro gesto de amor próprio?
 
O fato é que nossas vidas, independente da condição social, são um vasto mosaico de alegrias, conquistas, recompensas, frustrações, perdas, dores… De modo que as facetas aprazíveis funcionam como lenitivo psíquico ajudando a mantermos o pulso, nas tristezas, sobretudo, quando o vento da esperança ainda eriça nossos cabelos.

Do depressivo dizem que perde a esperança, a fé, e “progride” a um estado em que a própria vida se torna um peso.  A impossibilidade de viver ou morrer, como afirmou Emil Cioran, acaba sendo o tormento de um assim.

Ocorre-me a figura do que se dá no Sistema Cantareira, responsável pelo abastecimento de água em São Paulo. Em tempos normais, demanda e produção se equilibram e a coisa flui; em caso de estio prolongado como agora, precisam bombear água do “volume morto” que fica abaixo dos canos de captação; após submetem a uma purificação mais intensa, dado o teor de impurezas, para torná-la potável.
 
Acho que algo semelhante se passa na alma humana. Numa vivência que podemos definir como normal, tristezas e alegrias se equilibram e seguramos o tranco. Mas, se em algum momento acontece um grande desequilíbrio por termos  expectativas frustradas, às vezes, mesmo que doentias, e se esse estio de esperança, de alegrias, se prolongar, consomem-se nossas reservas; resta o poluído e raso “volume morto” da depressão.
 
Nesse caso, a “depuração” torna-se mais difícil. Como reacender a vontade de viver, a esperança, em alguém profundamente frustrado, que desacredita de tudo e de todos?
 
Na verdade vivemos a geração virtual, que se “relaciona” com máquinas e fantasia com calor humano. E fantasia é muito eficaz, quando o problema não é real.
  
Tenho um amigo que, quando convidado a jantar na casa de alguém, outrem questionava sobre o cardápio, ele respondia: “ Eu gosto de gente, conversa, relacionamento; comida é pretexto, qualquer uma serve.” Achava engraçado aquilo; hoje me parece muito sério.

Não sou psicólogo, tampouco, pretendo conhecer uma profilaxia para o mal da depressão. Entretanto, ouso afirmar que relacionamentos sadios, expectativas sóbrias, amizades verazes, em muito ajudam a emprestar sentido às nossas vidas.

Desgraçadamente aniquilamos nossa identidade individual e nos massificamos na cultura; enquanto no âmbito pessoal nos fechamos numa redoma de aparências, onde  fake é “normal”; e o normal seria fraqueza.

Isso no campo puramente humano. Quem pode anexar uma hígida fé em Deus, se torna moderado nas expectativas, tolerante às imperfeições, refratário ao passar do tempo, na perspectiva de vida eterna. Afinal, em Cristo “morremos” de modo não carecemos mais ter medo da vida.

O tempo que resta



“Passou a sega, findou o verão, e nós não estamos salvos.” Jr 8; 20 

Aqui temos uma fusão poética que toma emprestado a figura da colheita sazonal para ilustrar o tempo propício à salvação. A ideia é que a porta fechou,  os autores ficaram de fora. Se, é fato que Deus é Eterno e chama aos que lhe ouvem à vida eterna, também  é que estamos fora disso ainda, na dimensão onde o tempo dá as cartas. As coisas criadas, todas, têm que lidar com tal limite. “Tudo tem o seu tempo determinado; há tempo para todo o propósito debaixo do céu.” Ecl 3; 1 Assim, os dias que durarem nossas vidas, ou, até cerrar a porta da graça Divina, neles compreende o tempo para adquirirmos ingresso à eternidade com Deus. Passado isso, findou a sega. 

Contrapondo o Santo aos ídolos humanos em Atenas, Paulo demonstrou que temos um limite de tempo e espaço para encontrar a Deus, não, para forjarmos deuses segundo nossa arte. “E de um só sangue fez toda a geração dos homens, para habitar sobre a face da terra, determinando os tempos já dantes ordenados, e os limites da sua habitação; para que buscassem ao Senhor, se, porventura, tateando o pudessem achar; ainda que não está longe de cada um de nós;” Atos 17; 26 e 27 

Essa ideia de Deus perto e invisível, ninguém experimentou mais intensamente que o próprio Paulo. Seu zelo sem entendimento quando perseguidor da igreja derivava da cegueira; mas, em dado momento o Salvador se revelou; agora, estava ele revelando-O a outros. 

Enquanto a porta está aberta Deus nos permite andar no tempo, mesmo presos em corpos de carne. Viajamos ao passado em arrependimento e perdão, seja de nossas falhas, seja de nossos semelhantes; ao futuro, tocamos pela fé e esperança propostas, quando, nos inserirmos nas condições de Deus. Mas, chegará o tempo ( presto vem ) que as asas de voar no tempo serão aparadas, retendo os desobedientes num eterno presente; onde, perdão não faz sentido, esperança não faz morada, um inferno. Enxergarmos a verdade pelo retrovisor do tempo será apenas um chicote lembrando nossa omissão ou indiferença, caso, venhamos a agir assim, no tempo oportuno. 

Nos dias do Profeta Ezequiel temos algo interessante que ele mesmo relata. O Eterno o advertiu que ele estava “causando” com a galera; seu ministério estava “bombando”. “Quanto a ti, ó filho do homem, os filhos do teu povo falam de ti junto às paredes e nas portas das casas; fala um com o outro, cada um a seu irmão, dizendo: Vinde, peço-vos,  ouvi qual seja a palavra que procede do Senhor. E eles vêm a ti, como o povo costumava vir, e se assentam diante de ti, como meu povo, e ouvem as tuas palavras,...” Ez 33; 30 e 31 “  E eis que tu és para eles como uma canção de amores, de quem tem voz suave, e que bem tange; porque ouvem as tuas palavras...” V 32 

Digamos que o Face do Zéqui estava cheio de “curtidas;”  quem não quereria um  página assim?  Porém, os complementos que omiti desfazem o valor do “sucesso”. “...ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra; pois lisonjeiam com a sua boca, mas o seu coração segue a sua avareza. ... ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra.” Por fim, o inevitável juízo anunciado viria, e eles veriam à verdade pelo retrovisor. “Mas, quando vier isto (eis que está para vir), então saberão que houve no meio deles um profeta.” V 33  

O agito das multidões excitadas, o carisma do pregador ou cantor gospel da vez basta para quem tem comichão religiosa, invés de sede de Deus. Davi cantou: “A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo; quando entrarei e me apresentarei ante a face de Deus?” Sal 42; 2 Zacarias também ilustra a carência de Deus, como se fosse de água; “Ainda quanto a ti, por causa do sangue da tua aliança, libertei os teus presos da cova em que não havia água.” Zac 9; 11 
 Por fim, o mesmo Salvador desafiou: “E no último dia, o grande dia da festa, Jesus pôs-se em pé, e clamou, dizendo: Se alguém tem sede, venha a mim, e beba.” Jo 7; 37  

O risco de mal usarmos nosso tempo pode ser sintetizado numa paráfrase de Jeremias; Acabou o tempo da salvação; secou a água e não saciamos a sede. Por isso a Bíblia insta conosco com se tivéssemos apenas o hoje disponível, para fazer a boa escolha. “Enquanto se diz: Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações, como na provocação.” Heb 3; 15

O lado bom de ser ruim

“E começaram a rogar-lhe que saísse dos seus termos. Entrando ele no barco, rogava-lhe o que fora endemoninhado que o deixasse estar com ele. Jesus… disse-lhe: Vai para tua casa, para os teus, e anuncia-lhes quão grandes coisas o Senhor te fez, como teve misericórdia de ti. E ele foi, e começou a anunciar em Decápolis quão grandes coisas Jesus lhe fizera; e todos se maravilharam.” Mc 5; 17 a 20
 
Temos aqui um contraste; os “lúcidos” pedindo que Jesus se afastasse; o ex louco querendo Sua companhia. O Senhor ordenou que anunciasse aos seus o ocorrido, o que, prontamente fez. Assim, os sóbrios regressaram à rotina indiferente; o restaurado se fez pregador.

O mesmo Senhor ensinou que, aprecia melhor a salvação, quem sente-se mais devedor ante Deus. “certo credor tinha dois devedores: um devia-lhe quinhentos dinheiros, e outro, cinquenta. E, não tendo eles com que pagar, perdoou a ambos. Dize, pois, qual deles o amará mais?  Simão, respondendo, disse: Tenho para mim que é aquele a quem mais perdoou. E ele lhe disse: Julgaste bem.” Luc 7; 41 a 43
 
Então, não é exagero afirmar que, quanto pior, melhor. Digo, o pecador mais visível, que, sequer pode disfarçar-se tende a aceitar a salvação mais facilmente que, outrem, ostentando certa justiça própria.  Essa “superioridade”  era a doença dos fariseus que se sentiam justos, enquanto o populacho não passava de amaldiçoado. “Creu nele porventura algum dos principais ou dos fariseus? Mas, esta multidão, que não sabe a lei é maldita.” Jo 7; 48 e 49  Alguns estavam impressionados com a fala de Jesus; os ruins; os “bons”, principais, não tinham se deixado enganar; sabiam a Lei.

Por sutil que pareça, temos aqui nuances do velho conflito entre razão e fé. Enquanto aquela monta sua equação entre os colchetes do mérito, essa, nada tendo a perder  recebe a graça proposta. Isso não é teoria psicológica, ou, teológica. Fato comprovado mesmo naqueles dias. “…Em verdade vos digo que os publicanos e as meretrizes entram adiante de vós no reino de Deus. Porque João veio a vós no caminho da justiça e não crestes, mas os publicanos e as meretrizes o creram; vós, porém, vendo isto, nem depois vos arrependestes para  crer.” Mat 21; 31 e 32
 
É. Vendo a admissão dos maus, mais refratários ficam os “bons” à ideia de se misturar à gentalha. Acontece que classes sociais fazem certo sentido horizontal. Ante Deus estamos nivelados por baixo. Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer.” Rom 3; 10
 
A mesma Escritura, ( Lei e Profetas ) que os religiosos se orgulhavam por conhecer asseverava que seria assim. Que a mensagem do precursor do Messias seria uma “terraplanagem” nivelando todos. “Todo o vale será exaltado, todo o monte e todo o outeiro será abatido; o que é torcido se endireitará, o que é áspero se aplainará.” Is 40; 4 Os pequenos na sociedade como meretrizes e publicanos eram aceitos; ( exaltados ) e os montes, lideranças religiosas hipócritas, abatidos.

João Batista, o homem do machado fez muito bem seu papel. “E não presumais de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão. Também agora está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não produz bom fruto é cortada e lançada no fogo.” Mat 3; 9 e 10
Fora com a pretensão de santidade hereditária, mas, frutos!  E o primeiro da lista era o arrependimento, que os mais baixos produziram; e os “bons”, qual a figueira amaldiçoada contentavam-se com as folhas da presunção.

Em sua dura diatribe à teologia cristã, “O Anticristo”, o que mais irritava ao ateu Nietzsche era um trecho onde Paulo afirma que: “Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes;  Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são, para aniquilar as que são; para que nenhuma carne se glorie perante ele.” I Cor 1; 27 a 29
 
Não que haja pré escolhidos, mas, uma condição racionalmente “estúpida” chamada fé, sem a qual, nada feito. “Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos é o poder de Deus.” V 18
 
Certo é que, a árvore da ciência produz seu fruto; mas, as questões pertinentes à vida, medram noutra Árvore. Os loucos sabem o caminho. “Bem aventurado o homem que acha sabedoria,  o homem que adquire conhecimento;… É árvore de vida para os que dela tomam, e são bem aventurados todos  que a retêm.” Prov 3; 13 e 18

sábado, 30 de agosto de 2014

Aprisionando a besta

“Para que, segundo as riquezas da sua glória, vos conceda que sejais corroborados com poder pelo seu Espírito no homem interior;” Ef 3; 16
 
Paulo disse orar para que os efésios fossem corroborados, ou seja, fortalecidos, confirmados pelo Espírito, no homem interior.  Esse “homem interior” merece algumas considerações.
O notável filósofo, Sócrates, tentou explicar o ser humano usando a seguinte figura: “dentro de um invólucro de pele, uma besta policéfala, ( monstro de várias cabeças ) e no alto, um homenzinho.” A besta – explicou - tipifica a natureza indômita; cada cabeça um mau desejo, uma inclinação perversa. O homenzinho, geralmente impotente, a razão. Na sua concepção, o verdadeiro filósofo deveria “domar” a besta e se deixar guiar pela instância superior.
Ora, o que fez a qualidade, originalmente superior, sucumbir ao inferior foi precisamente a morte espiritual decorrente da queda. Ficou o entendimento do bem, sem força para praticá-lo. Paulo também ilustra a derrota do “homenzinho” ante a besta na luta de um bem intencionado sem o auxilio de Cristo. “Porque bem sabemos que a lei é espiritual; mas, eu sou carnal, vendido sob o pecado. Porque o que faço não  aprovo; o que quero isso não faço, mas o que aborreço isso faço. Se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa.  De maneira que agora já não sou eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim.” Rom 7; 14 a 17
A reprovação interior pelos mal feitos são protestos inúteis da consciência que,  mesmo  ainda apta para identificar pecados é impotente para evitar, dada a supremacia dos desejos malsãos.
Quando o Salvador ensinou a necessidade do novo nascimento mirava aí; a restauração do homem interior, a vida espiritual. Nicodemos, por sua vez, pensou no pacote inteiro com besta e tudo. “Disse-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, tornar a entrar no ventre de sua mãe, e nascer? Jesus respondeu: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne; o que é nascido do Espírito é espírito.” Jo 3; 4 a 6
O homem natural, “carne” tende à decrepitude, pois, é refém do tempo; o homem interior, de posse da vida eterna é instado a renovação, crescimento, santificação. “Por isso não desfalecemos; ainda que o nosso homem exterior se corrompa, o interior, contudo, se renova de dia em dia.” II Cor 4; 16
 
Nas coisas sócio-políticas da humanidade, geralmente, interior está numa posição subalterna em relação aos governos, que ficam na Capital; sede das decisões que afetam o país, estados; é a cabeça, ( cápita ) por isso, Capital.
Contudo, na “administração” da vida dos convertidos, o interior é capital. Digo; vitais são as decisões que derivam do espírito recriado, em Sintonia com o Espírito Santo.Porque, qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o espírito do homem, que nele está? Assim também ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus. Nós não recebemos o espírito do mundo, mas, o Espírito que provém de Deus, para que pudéssemos conhecer o que nos é dado gratuitamente por Deus.” I Cor 2; 11 e 12
 
Esse fortalecimento do homem interior terá consequências. “Para que Cristo habite pela fé nos vossos corações; a fim de, estando arraigados e fundados em amor, poderdes perfeitamente compreender, com todos os santos, qual seja a largura, o comprimento, a altura,  a profundidade, e conhecer o amor de Cristo, que excede todo o entendimento, para que sejais cheios de toda a plenitude de Deus.” Ef 3; 17 a 19
Coloca como raiz, fundamento do amor, sobre o qual, mais amor se edifica, em busca da plenitude de Deus. Que diverso da ideia corrente de buscar coisas de Deus, invés de Seu Ser! Por isso, após a renovação da vida, precisamos “oxigenar” a mente, para entendermos o novo ser gerado em nós, e seu fim. “…apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.” Rom 12; 1 e 2
Vemos que agora, o “homenzinho”, razão, faz seu culto prendendo a besta, ( Sacrifício vivo ) não permitindo o extravasar nocivo de suas inclinações. O simples aprisionar o mal é já seu juízo, a eficácia da cruz. “Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito.” Rom 8; 1

A "Teologia" dos bárbaros

“Porque sete vezes cairá o justo, e se levantará; mas os ímpios tropeçarão no mal.” Prov 24; 16 
 
No meio religioso costuma-se pensar que aquele que cai deixa de ser justo. Caiu porque se desviou do bom caminho. Sim, o julgamento do caráter a partir das circunstâncias é  comum no meio evangélico. Um hino antigo que denunciava essa visão  diz: “Se estou enfermo é porque estou em pecado…” 
 
Mais ou menos a “teologia” de R. R. Soares que baseado num verso de Isaías 53 onde diz que Jesus “Levou sobre si nossas enfermidades” conclui que um salvo não pode ficar enfermo; doença é do diabo.  Contudo, basta ler o verso seguinte para ver que tipo de enfermidades o profeta tinha em mente. “O castigo que nos traz a paz estava sobre ele…” Assim, as enfermidades em apreço tiram a paz com Deus, não a saúde. Claro que está falando de enfermidades da alma, pecados.
 
Certo é que o Senhor curou  muitos e ainda cura em resposta às orações. Mas, também é certo que Epafrodito, Timóteo,  Paulo, tinham seus problemas de saúde e o Senhor não interveio.  De modo que, a cura física é uma possibilidade ao alcance dos fiéis, não, uma necessidade.

Todavia, a queda do justo refere-se a problemas com pecados mesmo; não há inferência que autorize concluir que se refere à saúde. Tanto é possível “cair” para consumo externo; digo, sofrer por causas alheias ao seu caráter, como Jesus, Jó e Paulo, por exemplo; quanto, os justos cometerem seus próprios deslizes.

Acontece que há pecados que são de conduta; outros, de princípio. Esses se referem aos valores que adoto como aceitáveis ante Deus. O pecado de conduta é, quando, num momento de fraqueza ou descuido atuo de forma a trair os princípios que  tenho como norteadores de meu agir.
Tomemos como exemplo o pecado da mentira. Baseado em muitos textos onde vemos que o Santo abomina essa postura, também eu, passo a adotar com um princípio, um modo de agir segundo Deus, que me faz justo no tocante a isso. Entretanto, por uma conveniência circunstancial, digamos que eu conte uma mentira. Cometi, assim, um pecado de conduta; conduzi-me contrariamente aos princípios que acredito, caí. Mas, presto me arrependo, confesso,  peço perdão; o Senhor misericordioso me levanta.

Todavia, os ímpios que acham a mentira um sinal de esperteza e fazem uso dela com frequência, “tropeçam no mal”. Desconhecem a Vontade de Deus por rebeldia, ignorância; assim, estão caídos e sequer percebem. “O caminho dos ímpios é como a escuridão; nem sabem em que tropeçam.” Prov 4; 19
 
Além disso, circunstâncias adversas podem ocorrer  fortuitas, sem culpa de ninguém. Como se deu com Paulo em Malta. “E, havendo Paulo ajuntado uma quantidade de vides,  pondo-as no fogo, uma víbora, fugindo do calor, lhe acometeu a mão. E os bárbaros, vendo-lhe a víbora pendurada na mão, diziam uns aos outros: Certamente este homem é homicida, visto como, escapando do mar, a justiça não o deixa viver.” Atos 28; 3 e 4
 
Essa era sua “teologia”; Paulo acabara de escapar de um naufrágio, em terra firme foi acometido por uma víbora venenosa.  É um assassino que os deuses perseguem para matar, pensaram. Contudo, “sacudindo ele a víbora no fogo, não sofreu nenhum mal. E eles esperavam que viesse a inchar ou  cair morto de repente; mas tendo esperado já muito, e vendo que nenhum incômodo lhe sobrevinha, mudando de parecer, diziam que era um deus.” VS 5 e 6
 
Nem uma coisa nem outra. Certo que Paulo tinha suas culpas pretéritas, mas, fora perdoado e comissionado por Cristo, de modo que não havia perseguição contra ele, exceto, dos judeus. Também, que foi Jesus que neutralizou o veneno da víbora porque era com ele, não que Paulo fosse  Deus.

A Bíblia ensina-nos a conhecermos os caracteres pelos frutos, não, pelas circunstâncias. Afinal, só quem sobe aos padrões elevados de Deus pode cair.  A consciência do que adota princípios ímpios está cauterizada, perde a sensibilidade espiritual como um bêbado perde a física. “Como  espinho que entra na mão do bêbado, assim é o provérbio na boca dos tolos.” Prov 26; 9
 
Claro que um relapso que aos poucos deixa de ouvir aos reclames da consciência, acabará caindo de vez. O Homem que muitas vezes repreendido endurece a cerviz, de repente será destruído sem que haja remédio.” Prov 29; 1
 
Por mais que incomode, pois, a denúncia de uma consciência viva labora para preservar nossa alma. “Conservando a fé, e a boa consciência, a qual alguns, rejeitando, fizeram naufrágio na fé.” I Tim 1; 19 A consciência acusa a queda; a boa índole reconhece a culpa; o arrependimento conduz ao que Levanta.

Os sinais e a Pedra de Tropeço

“... O Senhor da vinha... destruirá os lavradores; dará a vinha a outros. Ainda não lestes: A pedra, que os edificadores rejeitaram, foi posta por cabeça de esquina; isto foi feito pelo Senhor e é coisa maravilhosa aos nossos olhos?” Mc 12; 9 a 11
 
Para diversos enviados do dono da vinha recusaram a entregar os frutos. Aí, a sentença: Seriam destruídos e a vinha entregue a outros. Nas mesmas bases que Israel, a igreja deve frutificar; digo; ser edificada sobre a mesma Pedra, Cristo.

Pedro ilustra a responsabilidade da filiação: “se invocais por Pai aquele que, sem acepção de pessoas, julga segundo a obra de cada um, andai em temor, durante o tempo da vossa peregrinação,” I Ped 1; 17 Diz mais: “... Eis que ponho em Sião a pedra principal da esquina, eleita e preciosa; quem nela crer não será confundido. Assim para vós, que credes, é preciosa, mas, para os rebeldes, a pedra que os edificadores reprovaram, foi a principal da esquina; uma pedra de tropeço, rocha de escândalo, para aqueles que tropeçam na palavra, sendo desobedientes;” Cap 2; 6 a 8

Associa tropeçar na Pedra com, na Palavra; equivalendo a  ser desobediente. Sim, tanto para Israel, quanto para a Igreja, a Palavra é um desafio à obediência; não o ponto de partida para um “Brinstorming”, onde cada um opina para ver onde chegam. Qualquer desvio, não importa o rótulo; liberalismo, flexibilização, inclusão, modernismo, não passa de tropeço.

Quem lê a história de Israel no Velho Testamento presto identifica quanto é serio pertencer ao Senhor. Proporcionais aos privilégios caminham responsabilidades. Coisas ditas aos Judeus, Pedro transporta à igreja. “Porquanto está escrito: Sede santos, porque eu sou santo.” Cap 1; 16
 
Todavia, cumprido o “tempo dos gentios” a graça salvadora volta a buscar aos de Israel; Paulo ensina: “Digo: Porventura tropeçaram, para que caíssem? De modo nenhum, mas, pela sua queda veio a salvação aos gentios, para os incitar à emulação. Se a sua queda é a riqueza do mundo, e a sua diminuição a riqueza dos gentios, quanto mais a sua plenitude!” Rom 11; 11 e 12 

Ele parece se contradizer. Primeiro pergunta se tropeçaram de modo a cair, e responde que não. Depois sintetiza o argumento baseado na queda de Israel. “Sua queda é a riqueza do mundo...” 
O que ele defende é que a rejeição de Israel foi circunstancial, não, cabal. Que findo o tempo dos gentios, a graça volverá a Sião. “Porque não quero, irmãos, que ignoreis este segredo: que o endurecimento veio em parte sobre Israel, até que a plenitude dos gentios haja entrado. E assim todo o Israel será salvo, como está escrito: De Sião virá o Libertador, e desviará de Jacó as impiedades.” Rom 11 25 e 26

Os sinais do céu apontam que esse tempo está à porta. Enquanto a igreja professa, em sua imensa maioria segue tropeçando na Palavra com seu modernismo apóstata, o vento do Espírito volta-se aos Judeus.O Rabino Itzak Kaduri revelou o nome do Messias antes de Morrer; Yeoshua. Causou espanto, mas, inquietações também.
Os eclipses lunares durante as festas judaicas, que sempre foram sinal para Israel estão acontecendo; as tensões no Oriente Médio fervem como nunca. 

Certo que o homem do pecado, o enganador que fará um pacto de paz por sete anos deverá surgir primeiro; Contudo, necessário se faz que surja num cenário onde a paz é mui desejada, como agora.

Como os “escolhidos” da Igreja não será possível enganar, há escolhidos em Israel que identificarão seu Messias Verdadeiro, e resistirão ao falso. Uma espera milenar será satisfeita e o endurecimento desaparecerá. “Mas sobre a casa de Davi, e sobre os habitantes de Jerusalém, derramarei o Espírito de graça e de súplicas; olharão para mim, a quem traspassaram;...” Zac 13; 10
  
Ironicamente os gentios receberam o Reino em Cristo em tempo de apostasia de Israel; a graça retorna aos Judeus em dias de apostasia da Igreja. Se Israel foi acusada de “frutificar para si” muitos líderes eclesiásticos atuais não fazem melhor que isso; enriquecem enquanto roubam almas. 

Aqueles mataram o Herdeiro; esses reiteram. “Porque é impossível que os que já uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus, e as virtudes do século futuro, e recaíram, sejam outra vez renovados para arrependimento; pois assim, quanto a eles, de novo crucificam o Filho de Deus, e o expõem ao vitupério.” Heb 6;4 a 6
 
Não haverá novo emissário buscando frutos, só o juízo. “Mas a ( terra )que produz espinhos e abrolhos, é reprovada, e perto está da maldição; o seu fim é ser queimada.” V 8

A menina e a metralhadora

“Filho meu, ouve a instrução de teu pai, e não deixes o ensinamento de tua mãe,” Prov 1; 8
  
O preceito que submete filhos aos pais deriva de dois pressupostos lógicos. Primeiro: Os pais amam seus filhos; segundo: Sabem o que é melhor pra eles. Todavia, nem sempre as lentes pelas quais os pais veem a vida são suficientemente diáfanas. E uma visão baça pode ensejar manifestações doentias de amor.
O mundo está chocado com o “acidente” num stand de tiro no Arizona, USA, onde, uma menina de nove anos atingiu seu instrutor na cabeça, quando aprendia atirar com uma metralhadora Uzi; tudo, devidamente filmado pelos pais. Eu coloquei acidente entre aspas, pois, uma arma de tal potência, capaz de disparar rajadas em velocidade espantosa, sair do controle de uma frágil criança é bem previsível, não, acidental.
Não me deterei, por ora, na insanidade dos pais que patrocinaram essa loucura. Mas, numa distorção comum alimentada pela maioria, que o problema não está em nós, mas, nos outros. Dessa concepção  derivam  posturas que, errando o diagnóstico, naturalmente erram a receita. Se meu problema básico está em mim, preciso disciplina, ajuste, domínio próprio, humildade. Mas, se está no outro, careço proteção, poder para resistir à maldade alheia. Se puder fazer MMA, tiro, toda sorte de defesa pessoal, mais seguro serei.
O enfoque bíblico é preciso: “Educa a criança no caminho em que deve andar; até quando envelhecer não se desviará dele.” Prov 22; 6 A ideia é que a vida em sociedade nos faz devedores “à priori”; digo; entramos em cena devendo, em face às leis e regras estabelecidas antes de nós. Dado que nossa inclinação tende sempre ao mal, a disciplina acaba sendo uma necessidade.
Não que a maldade dos outros não seja  problema; mas, na maioria das vezes, que eu posso evitar. “Filho meu, se os pecadores procuram te atrair com agrados, não aceites.” Prov 1; 10 Aqui temos um exemplo da sedução dos outros, mas, a decisão ainda é do um. Claro que a disciplina demanda o consórcio do ensino. Como evitar convite de pecadores sem ideia do que seja pecado?
Essa concepção que somos basicamente bons, a culpa é do sistema, da sociedade, do trânsito, enfim, do outro, permeia nossa cultura. Atentemos à campanha política! Os problemas estão todos do outro lado; as soluções do lado de cá, portanto, vote em mim! Isso é um vívido retrato de nossa vida moderna.
O egoísmo que nos leva a esperar o que não oferecemos é causa de muitos divórcios, inclusive. Todos esperam e cobram que seu cônjuge seja melhor, mas, quantos ousam tentar ser melhores em atenção à outra parte? Muitos casamentos não passam de stands de tiro onde os desajustados treinam para destruir melhor a próxima relação, ainda que nem percebam.
A Palavra de Deus jamais usa essas psicologices que transferem a culpa; antes, coloca o dedo na ferida; aponta o culpado. “De que se queixa, pois, o homem vivente? Queixe-se cada um dos seus pecados. Esquadrinhemos os nossos caminhos, e provemo-los, e voltemos para o Senhor.” Lam 3; 39 e 40 Se os desvios são nossos, natural que o conselho seja que analisemos nossos caminhos.
Isaías propõe uma troca pelos caminhos de Deus. “Deixe o ímpio o seu caminho, e o homem maligno os seus pensamentos, e se converta ao Senhor,...” Is 55; 7 O Salvador começou Seu apelo pelo mesmo prisma; “...Se alguém quer vir após mim, negue a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me.” Luc 9; 23
 
Mas, um modo de vida arraigado, que caminha conosco desde sempre pode ser assim abandonado? Afinal, gostamos do novo, a título de curiosidade, não, quando nos afronta. É. O Salvador também pensava assim. “Não se deita vinho novo em odres velhos; aliás, rompem-se os odres, e entorna-se o vinho, e os odres estragam-se; mas deita-se vinho novo em odres novos, e assim ambos se conservam.” Mat 9; 17 

O vinho novo de Sua doutrina demanda odres novos que chamou “novo nascimento”.  Aquele vetusto acostumado a ver apenas a maldade dos outros precisa ficar na cruz; feito isso, somos conduzidos em disciplina pelo Espírito e pela Palavra.
Qualquer um que mencionar nossa bondade inata, ou, ausência de culpa, logo identificaremos como enganador. 

Desde recém nascidos somos treinados no manuseio de uma Espada Poderosa, cujo alvo é a mentira. “Desejai afetuosamente, como meninos novamente nascidos, o leite racional, não falsificado, para que por ele vades crescendo;” I Ped 2; 2
 
Erros alheios convém evidenciar com a luz de nosso testemunho, bom porte, não, com a insana metralhadora da acusação. “Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam...” Mat 5; 16